Cognição sem neurônios
Do gene ao campo elétrico, um mapa cognitivo oculto que antecede o cérebro e sugere que a teleologia faz parte da matéria
Prólogo
“Você é o seu cérebro”. Essa é a primeira frase que lembro quando penso na minha história na Graduação em Psicologia pela UFRJ — tudo bem que essa frase seria posteriormente soterrada por mil outros cacoetes verbais psicanalíticos e foucaultianos. Estou falando da disciplina de neuroanatomia, no primeiro período, que acontecia no campus da Cidade Universitária, no Centro de Ciências da Saúde (CCS), na UFRJ, prédio com arquitetura cujo estilo lembra uma mistura desoladora, fria e impessoal de muito concreto, linhas retas, Niemeyer, Brasília, Corbusier e Brutalismo. Ninguém é feliz num lugar como aquele.
A disciplina era lecionada por ninguém menos que a famosa neurocientista Suzana Herculano, autora da frase que mencionei entre aspas. Naquela época, ela aparecia todo domingo à noite num quadro de popularização da neurociência no Fantástico, o tal do Cérebro Nosso de Cada Dia, que também era o título de um de seus livros. A turma se dividia entre os alunos que ficavam maravilhados com as aulas e aqueles que achavam ela uma grosseirona que dava aulas difíceis — curiosamente, ela foi diagnosticada como TEA nível 1, o que, aliás, explica muito eu nunca ter visto problema no jeito diretão dela.
A frase dela não me surpreendeu; era meio óbvio que eu sou o meu cérebro, por assim dizer. Eu já era leitor assíduo, desde o Ensino Médio, de psicologia, neurociência, evolução, Daniel Dennett e Richard Dawkins. Nas férias entre colégio e graduação matei no peito Tabula Rasa - A Negação Contemporânea da Natureza Humana (tenho um grupo de estudos recentemente sobre esse livro) e Como a Mente Funciona, ambos do Steven Pinker. Partir de uma visão naturalista que considerava a mente como parte do mundo natural não soava nada herético — muito pelo contrário, era muito mais são do que cogitar a existência de mentes desconectadas do corpo ou mistérios insondáveis do inconsciente. O mesmo não pode ser dito sobre os outros estudantes, que entram no curso de psicologia basicamente querendo mergulhar nas profundezas — muitas vezes pseudoprofundas — da psiquê.
Minha naturalidade com relação a essa abordagem e o incômodo dos colegas de turma ficaram claros numa aula sobre as bases neurobiológicas do vício em drogas. Centros de recompensa no cérebro, núcleo accumbens, dopamina e prazer; aprendemos sobre como tudo isso se conecta funcionalmente para produzir o que chamamos de vício ou, numa linguagem mais politicamente correta para os mais sensíveis, adicção. Na sala havia um menino de primeiro período já cheio de certezas e uma simpatia enorme e desinformada por C. G. Jung que não se cansava de repetir “o vício é muito mais complexo que isso” — o que soava como uma refrão automático vindo de um cara com visual de roqueiro dos anos 2000, uma composição curiosa.
Eu era do time (possivelmente de uma pessoa só) dos reducionistas e pensava que os problemas da psicologia poderiam ser resolvidos pela neurociência — vale ressaltar que nem eu nem meus desafetos teóricos tínhamos noção do que reducionismo significava num sentido mais filosoficamente rebuscado. De carona nessa visão vinha a ideia de que não há cognição, pensamento nem nada disso sem cérebro. A cognição é o que acontece quando toda essa parafernália neurobiológica é posta em funcionamento — como reza o credo funcionalista de Putnam. Por extensão, sistemas nervosos complexos marcariam o ponto de partida não só da inteligência, mas de qualquer coisa tão exigente quanto a consciência. A biografia da mente começaria ali.
Provavelmente por causa da popularização da neurociência, isso parece tão óbvio que até mesmo religiosos são pegos no contrapé por essa visão: apesar de crerem em espíritos e almas, já vi vários respondendo que não pode haver cognição em bactérias por causa da ausência de sistema nervoso.
So far, so good.
Acontece que todas essas certezas foram abaladas naturalmente na medida em que fiz uma coisa que digo o tempo todo para meus alunos fazerem: li, estudei, me aprofundei nos estudos mesmo que de maneira autodidata.
O que me desencaixou de vez do “mente = cérebro” foram leituras que empilham pontes em vez de muros. Os verbetes da Stanford Encyclopedia of Philosophy (SEP) — aqueles deliciosos, precisos e pacientes verbetes — deixaram claro que há muitas maneiras teoricamente sólidas de conectar mente e cérebro. Acabei lendo muita coisa que o estudante médio de psicologia nunca vai nem ouvir falar, tanto por falta de curiosidade quanto por falta de apresentação dessas obras no curso: Mind in Life: Biology, Phenomenology, and the Sciences of Mind (2007), Radicalizing Enactivism: Basic Minds without Content (2013), Radical Embodied Cognitive Science (2009), Action in Perception (2004). Some a isso mergulhos em filosofia da mente e ciências cognitivas, mais uma interlocução com correntes budistas que falam em co-originação e não-substancialidade, e o quadro, enfim, se forma na minha cabeça: o reducionismo segue sendo uma estratégia legítima, mas não a única, nem sempre a melhor. Ele ilumina mecanismos, mas falha quando toma mecanismos por toda a história. O que existe são arquiteturas de controle distribuído — dependentes de corpo, ambiente e ferramentas — em que o cérebro é central, não exclusivo; e “cognição” não exige, por definição, um sistema nervoso completo para começar. Essas leituras ampliam o horizonte da relação mente-cérebro e desafiam leituras neurocêntricas.
Não me interprete mal: a neuroimagem ajuda muito. Mas mapas de ativação não fazem da mente o cérebro por decreto. A fMRI capta hemodinâmica (sinal BOLD) que coocorre com estados psicológicos. Saber que a amígdala cerebral aumenta a atividade quando sentimos medo não implica que o medo seja essa ativação; é correlação, não identidade.
Se a neuroimagem mostra correlação e não identidade, a pergunta deixa de ser “onde” a mente mora e passa a ser como certos padrões se tornam possíveis. Foi aí que uma palavra, até então lateral no meu vocabulário, ganhou peso: emergentismo. A ideia é simples e também incômoda para um reducionismo apressado: alguns fenômenos surgem quando certas partes se organizam de certos modos que fazem brotar partes que não estavam lá nas partes isoladas. A água líquida do copo não é “apenas” H₂O somado molécula a molécula; liquidez emerge do acoplamento entre moléculas sob condições específicas. Em níveis mais altos, surgem novas regularidades, novas restrições e, sim, novas propriedades. Isso não nega a física, só indica que o todo não obedece passivamente à soma das partes. Por essa fresta começou a escoar minha confiança de que a neurociência, sozinha, resolveria os dilemas da psicologia — e, de carona, minha certeza de que sem sistema nervoso não pode haver cognição.
Ela cederia de vez quando encontrei sinais de controle e direção em tecidos sem neurônios — um fio que me levaria aos campos bioelétricos de Michael Levin.
Capítulo 1
Eu estava na Bahia, visitando meu pai. Em cidade pequena, a noite chega cedo. Abri minha lista interminável de vídeos salvos — palestras, entrevistas — para ocupar o fim de tarde. O algoritmo empurrou Michael Levin, da Tufts University. Cliquei por curiosidade. Enquanto a temperatura caía em Vitória da Conquista, fui descendo por uma trilha de tumores, bioeletricidade e comunicação entre células e, do nada, cognição, inteligência, consciência. Fui sendo seduzido pelo mistério e decidi ver onde ia dar.
Aqueles vídeos estavam costurando uma ideia de máxima simplicidade e, ao mesmo tempo, sofisticação: o fio que liga câncer e cognição é a coordenação em rede. Nos tumores, o problema central não é uma célula “louca” isolada, mas o desarranjo do conjunto: quando as células deixam de trocar sinais de orientação — o “agora”, o “até aqui”, o “pare” — o tecido perde o objetivo comum e volta a um modo egoísta de crescimento. Essa leitura cibernética (feedback, setpoints, correção de erro) sugere algo maior: o tipo de organização que costumamos atribuir ao córtex já existe, em versão mínima, em tecidos mais antigos. Se a cognição superior depende de um sistema nervoso em rede, é razoável perguntar se outros sistemas em rede — elétricos, químicos, mecânicos — não exibem também mínimos de cognição: perseguir estados-alvo, ajustar a rota, parar quando o erro cai. Nesse cenário, o cérebro não inventa a cognição; amplifica-a — dá escala, velocidade e integração a uma capacidade de controle orientado a metas que já operava, silenciosa, na matéria viva. É desse deslocamento que nascem as consequências conceituais e práticas que vêm a seguir.
Capítulo 2
Se levamos a coordenação em rede a sério, três peças se movem ao mesmo tempo. Primeiro, cognição deixa de ser interruptor e vira contínuo: há modos mínimos de controle orientado a fins (feedback, pontos de ajuste, correção de erro) em tecidos sem neurônios; modos intermediários em sistemas nervosos simples; e modos ricos — com linguagem, memória autobiográfica, planejamento — nos cérebros grandes. Segundo, a inteligência torna-se multiescala: emerge de moléculas que regulam, de células que coordenam, de tecidos que convergem para formas e de organismos que aprendem. Terceiro, a bioeletricidade funciona como “cola cognitiva” e memória de estado: padrões de voltagem estabilizam metas, guardam configurações e permitem chegar ao mesmo fim por vias alternativas — uma simetria funcional com o que o cérebro faz, só que antes dele. Esse quadro prepara a ampliação do nosso “espaço de problema” que vem a seguir.
Em termos simples, “espaço de problema” é o tabuleiro onde um sistema toma decisões. A vida não joga só no espaço 3D: também atua no espaço genético (quais genes estão ligados ou desligados), no fisiológico (a química interna do tecido), no elétrico (diferenças de voltagem entre células) e no anatômico (as formas do corpo). Por isso, girinos com o rosto embaralhado ainda viram sapos normais; planárias reprogramadas voltam a crescer com duas cabeças; e biobots feitos de células assumem funções novas. Não há um roteiro fixo: há controle de alto nível que tolera perturbações, corrige desvios e replaneja. Daqui saem duas ideias práticas. (1) Memórias latentes: o corpo guarda “planos de forma” que não aparecem na anatomia atual nem estão escritos explicitamente no DNA, mas podem ser acionados por lesão ou por ajustes elétricos. (2) Hackeabilidade: em vez de microgerenciar genes, dá para conversar com o sistema no nível dos estados globais — definir metas (“cresça até aqui”, “pare agora”) e deixar que o tecido execute o resto.
Do ponto de vista filosófico, as consequências são diretas. A primeira é sem misticismo: não se trata de “propósito do universo”, e sim de teleonomia — finalidade operacional. Em termos simples: sistemas vivos mantêm estados‑alvo e, por feedback, reduzem desvios ao longo do tempo. É aqui que o enativismo ajuda: mente/controle emergem do acoplamento entre partes (células, tecidos, organismo‑ambiente), não de um comando central. Um exemplo rápido: como um termostato, tecidos “medem” o que têm, comparam com o que devem ter e ajustam até chegar perto; quando chegam, param. As pesquisas de Levin mostram que essa lógica aparece antes do cérebro, mediada por padrões bioelétricos que funcionam como memória de estado e “cola” entre células. Falar em “fins”, aqui, significa descrever mecanismos de controle que orientam crescimento, reparo e forma — não postular intenções metafísicas.
Ao mesmo tempo, aparece a “catraca da inteligência”, um efeito de clique evolutivo que reaproveita competências básicas de resolução de problemas e as amplia em alcance e integração. O eu deixa de ser substância e passa a processo: um fluxo de auto-construção que integra memórias, previsões e metas. Em suma, o cérebro amplia — não inaugura — um modo de operação já presente na matéria viva. E o programa científico que se segue é claro: formular predições testáveis sobre estados elétricos e metas anatômicas, e aprender a programar estados, não apenas a editar peças no sentido mecanicista da coisa.
Epílogo: a música e o amplificador
Em Vitória da Conquista, quem me explicou como a música chega ao mundo não foi um engenheiro de áudio, foi meu tio autodidata, numa oficina improvisada que cheira a solda, café e cigarros. Sobre a bancada, uma corneta aberta, um falante desmontado, caixas de som desmontadas, gavetas com resistores, fios, placas; no rack, pré‑amplificador, mesa de som com marcas de uso, um compressor antigo. Ele descreveu a cadeia com a paciência de quem aprendeu ouvindo: um instrumento vibra, o microfone capta, o pré eleva o sinal sem deformar, a mesa mistura faixas, compressores domam picos, equalizadores esculpem frequências, o crossover separa graves e agudos, a potência empurra os alto‑falantes; por fim, a caixa transforma corrente em ar e a sala devolve ecos, colora timbres, decide o que chega ao ouvido. Nada disso inventa a música do nada; dá corpo, alcance e direção a um padrão que já vinha sendo organizado.
Com a matéria viva é basicamente a mesma coisa. As duas situações rimam. Muito antes do cérebro, sinais pequenos percorrem os tecidos: células se alinham, corrigem desvios, param na hora certa. Essa conversa bioelétrica funciona como memória de estado e cola de coordenação, permitindo que o conjunto persiga formas e mude de rota quando necessário. O sistema nervoso entra como o grande amplificador: dá volume, resolução temporal e alcance espacial ao que já está em marcha. A música não nasce no alto‑falante; chega até ele. Com a mente é igual: antes de ser um inaugurador original de algo novo, talvez o cérebro seja um daqueles transformadores que estão no poste — ele amplia e transforma a música da cognição, mas não a inaugura.






Ótimo texto!
"Só essa parte aqui: Acabei lendo muita coisa que o estudante médio de psicologia nunca vai nem ouvir falar, tanto por falta de curiosidade quanto por falta de apresentação dessas obras no curso." já valeu a leitura.
O autodidatismo em certos estudos dentro da área é de suma importância, até Pará responder perguntas que nem mesmo dentro da sala de aula possuem respostas "certas".
A filosofia da pisologia precisa ser mais difundido no meio acadêmico e apresentado, pois grande parte dos futuros psicólogos não conseguem correlacionar certos argumentos ao objeto do estudo.