Físico de dia, caos de noite: A dualidade de Wolfgang Pauli
O colapso psicológico de um dos maiores físicos do século XX e o início de uma investigação sobre a ordem obedecida pela mente e pela matéria
Este texto é o primeiro de uma série sobre a relação entre Wolfgang Pauli e Carl Gustav Jung — uma colaboração tão improvável quanto intelectualmente perigosa, onde física quântica, psicologia profunda e uma certa disposição para levar ideias desconfortáveis a sério começam a se misturar. Ao longo dos próximos textos, a proposta não é apenas reconstruir esse encontro, mas explorar a pergunta que emerge dele e que, até hoje, permanece em aberto: se as estruturas que organizam o mundo físico e aquelas que organizam a experiência subjetiva são realmente tão diferentes quanto aprendemos a supor — ou se essa divisão é, em parte, uma limitação do nosso próprio modo de pensar. (E sim, isso pode começar a soar como especulação em alguns momentos; a ideia é justamente avançar até esse limite sem fingir que ele não existe.)
Nem errado isso chega a estar
Para Wolfgang Pauli, imprecisão era um problema tão grande que beirava à falha de caráter. No seleto círculo da mecânica quântica, era conhecido por destruir teorias: ele conseguia identificar o ponto exato de contradição ou incoerência teórica --- era como aqueles boxeadores talentosos que socam no momento em que o adversário começa a sequência de eventos que gerará seu próprio soco. Timing é tudo na teoria e no boxe. Algumas teorias já nascem encruadas, sem lastro na realidade empírica --- são castelos de cartas, ganchos pendurados no céu. Sobre ideias assim, Pauli dizia que elas nem erradas chegam a estar --- um tipo de rebaixamento ontológico, um cruzado na mandíbula da má teoria.
Nem mesmo figuras como Erwin Schrödinger escapavam do seu rigor. Pauli chegou a chamar seu famoso gato (o gato de Schrödinger) de “melodramático”. Havia no físico uma espécie de intolerância estética para ambiguidades mal resolvidas, e a mecânica quântica tinha algumas.
Essa arrogância não vinha do nada. Aos 21 anos, já havia impressionado Albert Einstein com uma monografia sobre relatividade que exibia uma segurança matemática quase indecente para alguém daquela idade. Além disso, Pauli é lembrado, entre outras coisas, por formular o chamado Princípio de Exclusão: a ideia de que dois elétrons não podem ocupar o mesmo estado quântico ao mesmo tempo. É um tipo de regra aparentemente irrelevante, mas fundamental, pois sem ela a matéria colapsaria sobre si mesma — os átomos não permaneceriam unidos, as coisas não teriam volume, a natureza não teria a mínima estabilidade.
Do lado de fora, portanto, tudo parecia sob controle. Havia ordem no nível mais básico da realidade — partículas obedecendo restrições precisas, o universo comportando-se de acordo com regras que, no mínimo, podiam ser escritas sem nenhuma vergonha em uma equação.
O problema é que essa ordem não parecia se estender muito além disso.
A partir do final dos anos 1920, a vida de Pauli vira de cabeça para baixo. O suicídio da mãe, seguido por um casamento desastroso (encerrado com sua esposa trocando-o por um químico, o que foi particularmente humilhante para o físico), abrem uma fissura na sua carapaça metálica e sistemática de físico racional. Durante o dia, continua sendo o físico brilhante. À noite, dissolve-se em álcool, bares, episódios erráticos que sugerem que a cena está sendo tomada pela desintegração.
E então há o chamado “efeito Pauli”. A expressão circulava entre seus colegas como uma piada — daquelas com fundo de verdade --- para descrever a frequência com que equipamentos de laboratório pareciam falhar ou quebrar na presença de Wolfgang Pauli. O físico George Gamow comenta, em suas memórias (1966), o caso de um equipamento que teria parado de funcionar exatamente quando Pauli entrou na sala. As histórias são tão famosas que viraram parte do folclore biográfico do gênio. O próprio Pauli, em cartas e relatos indiretos, descrevia às vezes uma espécie de pressentimento físico antes de falhas técnicas acontecerem. É difícil usar lentes calibradas pelas teorias e pressupostos de um mundo fisicalista para explicar esses acontecimentos. Talvez seja algo entre coincidência, projeção e uma leve disposição para ver padrões que não sabemos como formalizar.
O fato é que a ordem que Pauli buscava em sua visão matemática de mundo estava muito longe de acontecer na sua vida real, no chão da realidade cotidiana. Há aqui duas formas de organização coexistindo sem integração. Uma delas, rigorosa o suficiente para descrever a estrutura da matéria. A outra, opaca, simbólica, resistente a qualquer formalização.
Em 1931, no limite dessa cisão — e talvez pela primeira vez confrontado com a possibilidade de que nem todo problema relevante se resolve com mais inteligência no sentido ultra intelectualizado da coisa —, Pauli procura Carl Gustav Jung.
O que se inicia como terapia acaba se desenrolando como um exercício intelectual involuntário em busca do desconhecido, do não formalizável. E se aquilo que Pauli chamava de caos — os sonhos, os impulsos, os eventos estranhamente “coincidentes” — não fosse desordem, mas um tipo de ordem que ele ainda não sabia reconhecer?
E pior: e se essa ordem tiver algo a ver com a mesma estrutura que ele vinha tentando descrever na física?


